A hipoglicemia é quando a glicemia “cai”. Em termos técnicos, isso quer dizer que ela está abaixo do que se espera que ela fique, menor que o objetivo glicêmico. A Associação Americana de Diabetes (ADA) diz que é quando o valor da glicemia está menor que 70mg/dl.

Alguns dos principais sintomas são suor frio, tontura, dor de cabeça. A hipoglicemia deve ser tratada imediatamente, com carboidratos de rápida absorção. Mas fora toda essa parte técnica que encontramos na literatura, o que é ter uma hipoglicemia?

É uma pergunta que poucos fazem. Como se sente uma pessoa em um episódio de hipoglicemia, para além dos sintomas?

É claro que essa resposta é subjetiva, cada pessoa vai sentir à sua maneira. Mas construímos um texto a partir da experiência das pessoas da nossa equipe com diabetes.

Ameaça Constante

A hipoglicemia, por si só, é algo que não está na nossa cabeça só na hora que ela acontece (quando a glicemia está abaixo do “normal”. O medo dela aparecer nos acompanha em vários momentos do dia. Nos que estamos fazendo contas, comendo algo ou não, medindo a glicemia, para conseguir tomar a quantidade correta de insulina.

Ela nos acompanha em pensamento enquanto estamos correndo até o ponto para conseguir pegar o nosso ônibus à tempo. Quando despertamos durante a noite e pensamos “nossa, melhor fazer um teste de glicemia”. Quando estamos sentando na cadeira do dentista e nos perguntamos sozinhos “e se eu tiver uma hipo aqui, como faço para corrigir com a aplicação de flúor acontecendo”. Quando estamos sentando no carro para dirigir e medimos a glicemia para checar se a glicemia está em valores seguros para começarmos o trajeto até o escritório. Quando estamos namorando e um pensamento rasteiro nos pega “será que tô com hipo?”. Quando estamos saindo para algum lugar e pensamos “será que vai ter algo pra comer lá?”.

O diabetes é uma questão que nos faz pensar em diversos cenários que não são “corriqueiros” para as demais pessoas. E se você não tem diabetes, talvez não entenda os desdobramentos na nossa vida que todo esse pensamento às vezes traz, como a ansiedade. Porque sentir não é a coisa mais gostosa do mundo.

Falta de energia e atenção

O sentimento da hipo é como se o corpo fosse perdendo energia. Afinal, nada mais é do que a falta de açúcar no sangue naquele instante. Isso inclusive gera confusão. “Como assim, fulano tem diabetes e tá comendo açúcar?”. Isso mesmo! Porque quando aplicamos insulina para repor a que não produzimos, para regular a taxa de açúcar no sangue, é normal que uma hora ou outra esse controle nos escape e a gente precise justamente de açúcar.

Nesse sentimento de ir perdendo a energia, é como se a gente fosse ficando mole, sem tantos reflexos. Há vezes em que falamos bastante besteira (afinal, depois que passa, alguém nos conta as bobagens que falamos e rimos juntos depois. Ah, quantas histórias hilárias pra contar). Outras que apenas devoramos tudo que vemos pela frente (porque o organismo reage com muitaaaaaa fome) sem falar nada, só pensando que fizemos uma correção muito maior do que a necessária e na próxima vez temos que administrar melhor essa parte.

Certa vez ouvi dizer que hipoglicemia é quando uma pessoa precisa se reencontrar no mundo. De fato, os sentidos ficam confusos, os sentimentos, a cabeça, as decisões. Ter hipoglicemia é como se você estivesse perdido dentro de si mesmo.

Quando você retorna à consciência do aqui e agora, aos poucos, a sensação é como se tivesse feito uma longa viagem.

Sensação

Existem alguns tipos de hipoglicemia:

  • Hipoglicemia como resultado de uma dose superior ao necessário de correção de glicemia
  • Hipoglicemia como resultado de uma atividade física atípica ou quando estamos iniciando uma nova atividade física à qual estamos nos adaptando
  • Hipoglicemia quando nos equivocamos na contagem de carboidratos
  • Hipoglicemia por estresse
  • Hipoglicemia que pode acontecer horas depois de ingerir bebida alcóolica (primeiro a bebida tende a aumentar a glicemia, mas horas depois, temos que tomar cuidado, pois pode cair).
  • Hipoglicemia por combinação de algum medicamento
  • Entre outros
  • Hipoglicemia “de basal”

Em cada situação podemos sentir diferente, depende da velocidade com que ela cai, por exemplo. De uma maneira geral a sensação é de que o corpo está sem força, perdendo energia. Há também quem não sinta nada, são aqueles que têm hipoglicemia assintomática (sem sintomas) e é preciso tomar muito cuidado, intensificar o monitoramento, pois não sentir a hipoglicemia pode ser perigoso.

Pós-hipo

E não para por aí. Ter diabetes é conviver com o desafio diário de que haverão momentos mais fáceis de cuidar da glicemia. Saber também que haverão hiperglicemias e hipoglicemias durante o caminho. E conforme caminhamos vamos tirando aprendizados. Aprendemos a lidar cada vez melhor com esses momentos quando eles aparecem.

Depois que a hipo passa, podemos sentir esses sentimentos todos juntos ou separados. Medo, insegurança, coragem, orgulho (de ter feito o melhor que podia!), confiança de saber como agir, entre tantos outros sentimentos dos quais tiramos aprendizados pra vida.

Esse texto faz parte de uma série de textos que a nossa equipe desenvolveu para quebrar estigma e preconceito em relação ao diabetes.

Para apoiar pessoas com diabetes no dia a dia do seu tratamento e para que aqueles ao seu redor entendam como o diabetes faz sentir. Antes de julgar a pessoa que está com hipo como alguém “que não se cuida”, “que fez algo errado”, se informe. Perguntar de que maneira você pode ajudar, de maneira que não invada o espaço do outro. Talvez seja melhor do que tomar uma atitude sem pensar. Trate com carinho, aprenda como ajudar, converse e apoie.

Vamos juntos?

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